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Os Amigos

“Dizem que a família não se escolhe. Não questionando a gritante evidência de tal afirmação, acrescento que não é só a família que não se escolhe. Acredito que no caso de alguns amigos o mesmo também acontece. Há amigos que surgem quando menos se espera: são-nos apresentados, oferecidos pelo destino na mais inusitada das ocasiões, como numa guerra entre ruas na nossa criancice, pré-adolescência. Quem diria que o miúdo com quem ia andando à porrada há mais de vinte anos seria ainda hoje um dos meus melhores amigos? Por outro lado, a partir de uma certa idade, deixamos de fazer amizades porque vai sendo mais difícil partilhar as nossas idiossincrasias, porque a paciência é cada vez mais reduzida – enfim, porque sim. Também se diz que os amigos são para os bons e maus momentos, mas eu eu sou mais o amigo dos maus momentos. Se o meu amigo estiver doente, é certo que eu vou vê-lo. Se comemora o aniversário, celebra uma qualquer data importante, ou mesmo se se vai casar, aí já não é tão certo que apareça, como já aconteceu um par de vezes. E eu tenho a plena e dolorosa consciência de que tenho faltado a demasiados momentos ao longo dos anos.
Eu estou a mudar lentamente, mas há certas coisas que nunca irão mudar. Eu nunca vou gostar de estar com muita gente no mesmo lugar.”
Algodão – Os amigos