Porque se matam as saudades

“Não sonhas. Morres um pouco de manhã e ao meio dia quando o sol mais queima. Tens de continuar. Tens de esquecer. Não aguentas mais. Tens de acabar, matar, recomeçar a viver. Só que ela está presa por dentro e tu agarrado a ela por um nó da garganta e não sabes o que deves deitar fora, arrancar, vomitar para que ela te saia de dentro. Sais à noite com definitivos propósitos de não voltares sozinho. Compões dentro da cabeça uma mulher com um bocadinho disto e um bocadinho daquilo e esperas que bata certo. Levas um bocado de tecido rasgado e queres encontrar o todo. Mas não encontras ninguém. Pior, encontras alguém que te vem provar sem remissão que não a vais substituir tão facilmente porque não há nada no mundo inteiro depois dela senão um deserto de tempo que se estende à tua frente onde tudo se torna insignificante e pequenino. Começas a beber, a fazeres-te mal, porque estás triste e não acreditas em nada senão na dor. Queres morrer e não podes e nem sequer coragem tens para te matar. E quando ainda pensas poder voltar atrás, também sabes que não é possível voltar atrás porque tu estás num mundo e ela noutro, os dois que tão depressa se afastam, encerrados em planas fotografias em que estão abraçados e nus e já não somos nós.”

Pedro Paixao in Nos Teus Braços ” , 1998

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28 thoughts on “Porque se matam as saudades

  1. Profundo, diria que vai fundo nos conflitos humanos e suas fantasias muitas vezes delirantes. Decidir é dúbio ou recheado da insegurança da certeza. Cá no Brasil houve um cantor famoso chamado Cazuza que em uma de suas músicas descrevia algo assim, “Disparo contra o sol
    Sou forte, sou por acaso
    Minha metralhadora cheia de mágoas
    Eu sou o cara
    Cansado de correr
    Na direção contrária
    Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
    Eu sou mais um cara

    Mas se você achar
    Que eu tô derrotado
    Saiba que ainda estão rolando os dados
    Porque o tempo, o tempo não pára

    Dias sim, dias não
    Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
    Da caridade de quem me detesta

    A tua piscina tá cheia de ratos
    Tuas idéias não correspondem aos fatos
    O tempo não pára

    Eu vejo o futuro repetir o passado
    Eu vejo um museu de grandes novidades
    O tempo não pára
    Não pára, não, não pára

    Eu não tenho data pra comemorar
    Às vezes os meus dias são de par em par
    Procurando agulha no palheiro

    Nas noites de frio é melhor nem nascer
    Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
    E assim nos tornamos brasileiros
    Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
    Transformam o país inteiro num puteiro
    Pois assim se ganha mais dinheiro

    A tua piscina tá cheia de ratos
    Tuas idéias não correspondem aos fatos
    O tempo não pára

    Eu vejo o futuro repetir o passado
    Eu vejo um museu de grandes novidades
    O tempo não pára
    Não pára, não, não pára

    © Warner Chappell / Editora GPA
    63540878

    Link: http://www.vagalume.com.br/cazuza/o-tempo-nao-para.html#ixzz3KQFG1Nsa

    😉

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